Os bairros populares, em Baku, estão em degradação acelerada, com inúmeras casas demolidas e outras tantas abandonadas. É visível um processo de esvaziamento populacional para dar lugar a uma cidade moderna.
O vizinho e famoso Central Park, exuberante em dimensão e cuidado, teve origem em bairros demolidos, como o que visitei (leia post anterior).
Não conhecendo a língua local nem dispondo de guia, recorri ao Gemini:
Boa tarde, Gemini. A cidade de Baku no geral é muito bem cuidada, com boas calçadas, parques, etc. No entanto, caminhando em regiões não turísticas, mas centrais, querendo conhecer lugares populares, verifiquei que há alguns bairros antigos que têm muitas casas abandonadas e demolidas, dando a impressão de que se vive um processo de expulsão para investimentos imobiliários. Alguns parques, muito bem localizados, têm jardins com árvores muito jovens, sugerindo também que houve uma substituição de áreas antigas para criar os parques. Gostaria de saber se tal impressão corresponde à realidade.
A resposta foi afirmativa. Segundo a IA, trata-se de uma política agressiva de renovação urbana, gentrificação e embelezamento, financiada em parte pelo boom petrolífero, marcada pela demolição de bairros populares e reassentamento de moradores para áreas periféricas. O caso mais emblemático teria ocorrido em Sovetsky, substituído por grandes avenidas e pelo atual Central Park.
Minha interpretação:
Não há dúvida de que a modernidade de Baku não condiz com o ideário do Fórum Urbano Mundial organizado pela ONU-Habitat. Há contradições que, embora obscurecidas pelo tratamento embelezador, não há como negar.
Compreende-se, porém, que o Azerbaijão queira ressaltar sua independência, por séculos abafada, e veja nos signos arquitetônicos e urbanísticos contemporâneos um apoio.
No entanto, houve dois pesos e três medidas. Demoliram-se bairros populares e a antiga área industrial petrolífera, negando parte importante da história urbana. Preservaram-se a Cidade Velha medieval, exemplarmente recuperada; os bairros “parisienses”; e os conjuntos residenciais soviéticos.
Baku talvez não tenha percebido que a modernidade mudou. A tabula rasa deu lugar ao reconhecimento das preexistências. A iconografia da arquitetura espetaculosa só vale em doses homeopáticas; senão, vira parque temático cujo tema é a própria cidade (like Dubai). O rodoviarismo já encontra contrapontos. Os grandes condomínios residenciais monofuncionais e murados segregam-se da cidade em que querem viver.
Mas a destruição dos bairros populares e a expulsão de seus moradores para uma nova periferia talvez seja a mais inadequada das medidas para uma cidade que busca a modernidade. As inevitáveis perdas culturais e de energia social, por certo, lhe farão falta no rumo de um futuro sustentável, resiliente e inclusivo. E, quem sabe, democrático.