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Artigos

O legado de um pensador da complexidade

Edgar Morin nos deixou no dia 29 de maio, aos 104 anos. É uma perda imensa, mas é também um momento de reconhecimento a uma das mais extraordinárias inteligências do último século.

Em diferentes circunstâncias recorri a Edgar Morin para pensar a cidade, suas contradições e suas possibilidades. Sua defesa da esperança talvez seja uma de suas heranças mais necessárias.

No auge da pandemia, quando tudo parecia desmoronar, Morin nos ofereceu uma reflexão primorosa em entrevista ao Le Monde:

“O pós-epidemia será uma aventura incerta na qual se desenvolverão as forças do pior e do melhor, sendo estas ainda fracas e dispersas. Consideremos enfim que o pior não é certo, que o improvável pode acontecer e que, no titanesco e inextinguível combate entre os inimigos inseparáveis que são Eros e Tânatos, é sadio e tonificante tomar o partido de Eros.

Que esta crise sirva para abrir nossas mentes, há tanto tempo confinadas no imediato.”

Adotei essa recomendação como epígrafe de meu livro “Reinvenção da Cidade / Interação, Equidade, Planeta”. Ao publicá-lo, tive a feliz oportunidade de estar com Morin e sua esposa, Sabah, em uma noite memorável, tendo ele saído dias antes de quinze dias hospitalizado, mas nem assim deixou de nos presentear com sua presença e lucidez. Já centenário, nos disse que, tendo forças e sendo bem-vindo, preferia estar junto do que em casa. E nos pediu uma caipirinha, “com pouco açúcar”.

Morin atravessou guerras, crises, transformações tecnológicas e mudanças profundas na vida social sem jamais abdicar da reflexão crítica. É notável seu livro “O espírito do Tempo” (1960),  onde faz uma análise sobre mitos, sonhos e crenças vigentes nessa década. Nele, enfatiza o advento da sociedade de massa como fundamental ao pensamento ocidental de então. E, de modo premonitório, Morin traça um quadro globalizado onde a cultura de massa se apresenta como vanguarda do que no século XXI viria a se caracterizar como o período das redes sociais.

Até os seus últimos anos permaneceu atento ao mundo. Aos 102 anos publicou livro sobre Lições da História, onde o ilustra com pequenos capítulos recolhidos de sua vivência e reflexão centenárias.

O pensamento complexo, desenvolvido ao longo de sua vasta obra, propôs religar aquilo que a modernidade separou: ciência, cultura, economia, política, natureza, território e condição humana – que a realidade não pode ser compreendida pela fragmentação dos saberes.

A cidade contemporânea é, por excelência, o lugar da complexidade. Morin ajudou-nos a compreender que os grandes desafios urbanos não podem ser enfrentados por políticas setoriais autônomas. A questão habitacional não é apenas moradia. A sustentabilidade não é apenas questão ambiental.

Num mundo em que mais da metade da população vive em cidades, e em que as mudanças climáticas e as desigualdades se manifestam sobretudo nos territórios urbanos, sua reflexão permanece indispensável.

 

Foto: jantar com Edgar Morin e sua caipirinha